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Memória | Depoimentos Públicos
Ismael Ivo (1955)
Fotos de: Regina Brocke, Dieter-Blum, Gert Weigelt, Tomas Dombrowski, Werner-Bartsch e Acervo Ismael Ivo.
Porque que eu entro dentro de um estúdio de dança basicamente todos os dias? Porque eu quero ser feliz. Porque fazendo isso, eu encontro a felicidade. Eu encontro a alegria de criar coisas, de ver corpos, ou o meu corpo ou os outros corpos, se movendo, desenhando coisas, dentro dessa disciplina que é etérea.
A dança tem esse flerte, essa paquera com o indizível, com o invisível que você cria forma e desaparece em segundos.
Bailarino, afro-brasileiro, classe média baixa, periferia, Vila Prudente, Vila Ema, nascido e criado nessa circunstancia de bairro, de repente, tendo a sensação de que a dança era uma linguagem que eu queria experimentar e me apropriar com o veiculo de expressão pessoal.
A dança não pode só se alimentar de conceitos e espaços laterais, a dança naquele momento se auto-fertilizava sem criar divisões e isso pra gente foi fundamental, muito fundamental.
O bailarino e o coreógrafo, hoje muito juntos, é fundamental. Você tem que permanecer no palco até o momento em que você tem alguma coisa a dizer.
Você entra em um estúdio para fazer uma coreografia não tem regras, construção, desconstrução, conceitual, não conceitual, não tem regras. Você tem um momento, e o momento tem que ser aliado com a criatividade em si. A objetividade de criar uma coisa de acordo com essa energia viva do momento, claro que você se prepara, essa trajetória de você absorver, respeitar sua cultura, suas origens, suas instituições, suas inspirações, fazer um estudo ainda profundo delas, e depois também, se associar com outros tipos de linguagens estéticas e informações. Não existe hoje uma estética padrão. Porque é que tem que ter? Não. Existe sim uma exploração de ideias. É importante que o artista ou coreógrafo, se está tendo opção de pisar no palco, você tem que dizer a que veio.
Um coreógrafo é, em si, um laboratório de composição, um pesquisador e as pessoas que realmente, eu penso, se tornam coreógrafos, têm esse dom de visão, que não é só criar ao léo, mas ter ferramentas, ter assim, bases aonde você pode dar realmente o que a gente chama assim 'asas a imaginação'.
A dança em si, para mim, nesse momento meu, de vida e de realizações, se define como uma coisa que eu não podia evitar, aonde você vai definindo sua existência através dessa arte, do exercício dessa arte. Como eu olho as pessoas, como eu me interesso pelas pessoas, como eu me interesso pelo mundo, é através da dança. Então é um grande baile essa coisa toda. Quer dizer, toda essa vida é um grande baile, de ver, absorver e traduzir linguagens e visões através do movimento. O universo se move e você traduz na sua arte."
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